segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Lixo

Foto: Fabiano Trichez

Não há nada mais democrático
Do que o lixo
Ele é igual para todos
No meio das sacolas
Não faz diferença
Ser lixo rico
Ou lixo pobre
Nenhuma religião
Encontra maior comunhão
Do que no lixo
O lixo é a parte mais honesta
E digna das nossas mãos
A obra prima da sucata
E um último suspiro
De uma tampa de garrafa
As lágrimas vão para o lixo
O livro, a garrafa, a gente
Todos se encontram no lixo
É fácil livrar-se dele
No caminhão
Mas o lixo continua sendo
Nossa parte genuína
de civilização.

Mayara Floss

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Ir

Foto: Fabiano Trichez

Sinto.
Com a saliva seca
Que preenche a minha boca
Aquele suspiro curto
A voz cheia, embora vazia
Aquele arrepio quente
Mas repleto de tristeza
Os ouvidos, são mais ouvidos
E os sentidos, mais sentidos

Sinto, mas é hora
Os comboios estão quase
No fim. Mas é hora.
E se não pular agora
Talvez não exista
Histórias para contar

Os olhos completos
Mas com sede de olhar
Parto e me reparto
E sei que eu fico
E vou deste lugar

Mayara Floss

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Excesso



Ultimamente tudo é demais
O calor é demais
O frio é demais
A gordura é demais
O tempo é demais
O amor é demais
O sal é demais
O açucar é demais
A vida é demais
A única coisa de menos
É o pensamento

Mayara Floss

sábado, 7 de janeiro de 2012

Pensamentos online

Foto: Fabiano Trichez

Às vezes eu tenho medo do meu computador da internet. Dessa constante de todos terem vidas perfeitas e quererem agradar seja por uma foto no 9gag, seja pelas frases muitas vezes recortadas que se identificam. Muitas vezes, hoje, para você poder ter um sentimento você deve compartilha-lo (ou twitta-lo, enfim), se você está feliz você primeiro divide isso antes de sentir. Precisamos compartilhar antes de sentir.

Ao mesmo tempo deixamos acumular os e-mails na caixa de entrada, apesar de passarmos muito tempo na internet. Ainda, aquela sensação de estar sozinho em meio a uma multidão, afinal ficamos mais sozinhos (isso não significa que não haja interação).

Também, a desagregação da conversa, é conversar sem voz, conversar na internet. Você pode escrever sem ser interrompido sem ter os percalços de uma conversa com falas de voz. É mais fácil dizer “que ama e sente saudades” pelo computador. Paramos de prestar a atenção em quem está ao nosso lado quando estamos presos com esta tela é difícil conseguir se comunicar com pessoas reais quando o mundo virtual se desdobra na sua frente.

As fronteiras estão menores, estamos sempre conectados, mas esbarramos não só na fronteira da voz, mas também na dos relacionamentos. Quantas vezes nos sentimos desajeitados ao nos depararmos com a pessoa que trocamos milhares de palavras online? Tudo tem um preço. Até que ponto nossos relacionamentos não serão apenas retweets e botões de curtir?

E os avatares parte da personalidade e parte da subversão dela. Até que ponto nossa identidade real não se transforma em um avatar? Em uma projeção do que queremos ser para os outros e não do que somos na realidade. Todos tem fotos de lugares legais, de pedaços da sua vida (muitas vezes alinhadas em uma linha do tempo), festas, bares, pontos turísticos, atividades arriscadas para seus protótipos de vida perfeita e da necessidade de serem curtidos para serem reconhecidos.

Não quero ser antiquada, apenas acho necessário aprendermos que apesar de termos crescido e amadurecido com o mundo virtual, isto não quer dizer que este mundo amadureceu.

Mayara Floss

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Céu

Foto: Fabiano Trichez

O espelho nunca é o mesmo
Mas o céu,
Ah o céu,
Sempre é azul
E se a face não é a mesma
Os olhos, a pele, o coração.
O céu é o mesmo
Se a memória muda
E até os olhos mudam
O céu continua infinito
E imutável

O céu não tem idade
Mas mede o tempo
E continua eternamente azul
Mesmo com o colorido do entardecer

Por isso,
Quando pensares que possa
Esquecer-se de ti,
Olhe para o céu
Ele nunca
esquece o azul e o infinito
Mayara Floss

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Entrega


O capitão segurava o leme, num desses arrombos de maus pressentimentos. Quando a maré é muito calma, é porque as nuvens se aproximam. O barco já envelhecido, mas com o casco que sobrevivia ao mar atravessava o final de tarde. Não era exatamente um capitão caricato com barba, perna de pau e papagaio. Mas tinha aquela postura que o oceano dá àqueles que muito viram em suas águas. Quando o mau vento vinha cada fibra de seu ser sabia o que era quebrar as pazes com a imensidão.

O céu preparando-se para deixar a lua chegar sentia no fundo aquela sombra cinza que apagava o brilho das estrelas. A cortina que se tornaria negra no contraste do céu escuro. De tanto se afogar no ar ele já sabia, iria preparar os homens. Não temia as águas, mas seu único medo (aquele que deixa o coração fora do peito como se um buraco estivesse se abrindo) era que uma coisa se perdesse naquela azul.

Para os marujos novatos o mar nunca parecera tão bom, calmo e sereno para navegar. E aquela parte interior que cada um só conhece a sua desdenhava das ordens do capitão. Como previsto o breu e o silêncio que precedem a fúria afundaram-nos em cima da água. Antes de repirar o último fôlego o céu clareou e a água salgada começou aquela dança tenebrosa da tempestade. O som veio logo depois estremecendo cada sentido naqueles que se aventuravam a desafiar o filho de Netuno.

Só os apaixonados entendem as águas revoltosas, apenas esses conseguem preferir o limiar da vida aos pés no chão. Embora, antes temer e voar do que ser eterna raiz na terra. E era esse o grande amor do capitão aquele sentimento infindável que só é possível se sentir olhando nos olhos. O mar eram seus olhos e como todo o grande amor era entregue naquelas ondas, sem medo, exceto por um pedaço seu que deveria chegar a terra.

Quando tudo acontece muito rápido é que o mundo passa devagar. E sem mais nem menos como um cobertor suspenso no ar prestes a tocar a cama o mar abraçou o barco. E aquelas memórias que só voltam quando se sabem preciosas para serem revividas mais um instante apareceram. Lembrava-se do cheiro de sua mãe, da terra firme, da terra mole que virou seu lar, de vários olhos, daqueles que passaram, dos que partiram, de alguns abraços, suspiros, de como foi perder-se, do gosto do sal naqueles mares. Sim, do gosto do sal, porque os sabores mudam conforme a maré e as histórias.

O que não podias desaparecer dos outros humanos era o que carregavas no bolso. E aquela ferocidade só podia ser amor, pois aquele oceano sabia quando seus antigos filhos deveriam voltar para o berço. Ele segurava a sua vida humana que antes estava no bolso em suas mãos porque sabia que seria o seu ser naquele último gesto.

O mesmo silêncio que a precedeu dizia que a tormenta passou, e os atormentados tripulantes se seguravam na insegurança marítima de sua sorte e coração, sem entender o amor daqueles braços de água. O naufrágio é sempre o bojador para os apaixonados, o batizado para aqueles que iriam fazer do mar a sua terra.

Enquanto se lutava contra a morte na superfície o capitão afundava no sal com as mãos abertas com a certeza de que a areia iria carregar até os pés de algum desavisado a sua alma. Não iria negar este último pedido das águas e deixou-se.

Alguns não voltam para a superfície, apenas viram tritão.

Mayara Floss

domingo, 4 de dezembro de 2011

Estatística


A terra é redonda, nós é que gostamos de por tudo em quadrados. E em todos estes lados deixamo-nos como dados para a próxima jogada. Que já se aproxima. Cubos e tudo com muitas arestas, porque é mais fácil de calcular é melhor e mais exato. A questão, é que não somos retos, perfeitos e enquadrados, mesmo que nossos átomos em teoria alinhem-se assim. A vida é um círculo, ou pelo menos, algo que não tem um cálculo exato e fica com vários números atrás da vírgula. Somos redondos e imperfeitos, porque esfera de verdade só na idealização dos matemáticos. Somos enumeráveis, mas não somos números, mesmo que o censo trate assim. Somos graficáveis, quantificáveis, tabeláveis e um monte de dados. Mas os dados não nos conhecem, não nos expressam e estatisticamente não mudam nossas vidas, mesmo que aplicáveis. Podes fazer múltiplas escolhas, mas não a sua escolha, podes escrever sobre o que quiseres, mas provavelmente estarás fora da curva normal e a sua amostragem de vida será muito pequena para a nossa realização. Correm atrás dos números, classificam, categorizam, elevam , mas os resultados continuam sendo números e as considerações finais uma sugestão para uma repetição, reavaliação e reestruturação, porque tudo muda, menos os números. Somos nada mais que cubos mágicos que com a fórmula certa dão um bom gráfico. Mas pergunto aos números, numeradores e eu que sou numerado, por quanto tempo vão me deixar estatisticamente calado?

Mayara Floss
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