domingo, 20 de junho de 2010

Ser azul

Foto: Fabiano Trichez

Sinto minha alma azul
Como este mar que se estende
na minha frente
Sinto-me azul
Como este céu que me envolve
na minha mente

Embora por dentro
eu esteja branca
Como uma página em branco
Á(vida)...
Por um pouco de tinta
Que possa desenhar

Quem sabe procurar
as minhas linhas
Para encontrar meu corpo
E escrever-me entre o céu
e o mar

E buscar o meu reflexo no azul
Sem saber se minha imagem
Era céu, era mar
Ou era um avião de dobradura...
Voando pelos corais
Ou era um barco de papel...
Navegando pelas nuvens

Certamente, um bom pescador
Irá encontrar uma
isca nas minhas palavras
Ou um bom aviador
irá encontrar a rota
dos meu versos

Enquanto isso,
Continuo refletindo
azul

Mayara Floss

terça-feira, 15 de junho de 2010

Res(pingar)


De cada lástima, de cada pingo
O rio da vida que corre
Mais morre
E vai deixando os res(pingos)

Encanamentos, torneiras, canaliz(ações)
E as nossas in(críveis) realiz(ações)
Vão guiando, desviando
E criando novos meandros

Embora, neste rio que deságua
Não tenha peixes
A vida se desvai em um feixe
E muitas lágrimas de água

Correndo entre os vãos
Da "civiliz(ação)"
Deixa cada pedaço de chão
Sedento por um pingo de atenção

De cada lágrima, de cada pingo
O rio da vida que corre
Mais morre
E vai deixando...

Mayara Floss

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Teatro

Foto: Fabiano Trichez

Pela cidade
Todos me parecem
estranhos conhecidos
Amigos antigos
Que escreveram alguma história
e perdeu-se no tempo

Tudo parece mais verdade
Embora os sonhos continuem
do mesmo tamanho
(mania de ser tudo grande ultimamente)

Fantoches na calçada
- Bom dia, tudo bem, obrigado.
e o relógio imperdoável:
- Oi, estou atrasado.

Aliá, sempre estamos atrasados
Sempre atrás
E para trás ficam nossos passos
Entre um ponteiro e faixa de pedestres

Ensaiamos os caminhos
Decoramos as falas
e esquecemos que já somos
protagonistas do nosso teatro.

Mayara Floss

terça-feira, 25 de maio de 2010

Pescador

Foto: Fabiano Trichez

Os olhos perambulam a rede
E a mão contrai-se em contato
com os fios finos
As cicatrizes já nem são tão grosseiras
O tempo deu conta
Tracejou a face do pescador

Cada instante de sol e mar
chegou na sua pele
como cada peixe
chegou na sua mão

O sal transformou-se em lágrimas
como um barco distante
Que foi tragado pelo céu-oceano
Mas ainda ficaram eternas
as pegadas na areia
E as lágrimas já se transformaram
em sal, oh, pescador

Mayara Floss

terça-feira, 18 de maio de 2010

Roubaram

Foto: Fabiano Trichez

Roubaram a luz
E deixaram pendurada
Em algum lugar
Iluminando
a escuridão abandonada

Roubaram a escuridão
E a deixaram abandonada
Em algum lugar
Assombrando
a luz pendurada

Mayara Floss

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Cadeiras

Foto: Fabiano Trichez

Desta fileira de cadeiras
Desse corredor
Sobrando lugares
Faltando espaço

Onde vou sentar
Para deixar o ponteiro do relógio
Distorcer o tempo
Vencer o chão da espera

Continuo em pé
Continuo com minha planta
pregada ao chão
E a sombra das cadeiras

Diz que quanto mais se vive
Menos se tem para viver
E no limiar do tempo
Continuo (i)móvel.

Mayara Floss

terça-feira, 4 de maio de 2010

A porta

Foto: Fabiano Trichez

"É muito mais fácil matar um fantasma do que
matar uma realidade." - Virginia Woolf


As portas estão cada vez maiores
E as oportunidades menores
A beira da escada
Exitem tantos motivos
Que um abismo separa o abrigo
E deixa-nos sentados

Com frio
Com fome
Com medo

A sombra no canto da porta
Tem a esperança
Que os muros sejam menores
E que ao menos haja espaço
para os sonhos
Porém, há uma barreira

Sem piedade
Sem horizontes
Sem conveniência

Aliás, inconveniente
Presença censurável
De um mundo que tem todos os
números um
E não tem espaço para mais nenhum
Inviolável

Proibido entrar sem camisa
Proibido correr
Proibido cruzar esta cerca

Estamos cada vez mais esfomeados
Do tamanho da nossa fome
Vemos mais o anúncio
Do que o nosso estômago
E comemos os programas

Fome de novela
Fome de desenho animado
Fome de telejornal

Mesquinhos, continuamos sentados
Assistindo do nosso sofá
Enquanto outros sentam no cimento
Com os olhos cegos
de fome e a boca seca de ver

Faltam portas
Faltam janelas
Falta teto

E o nosso olhar de avestruz
Esconde-se no buraco da ignorância
Nós continuamos sentados
e eles continuam sentados
Esperando a porta abrir

Mayara Floss
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